Em meio a furacões e terremotos escolhi falar sobre a insegurança. Nossa fragilidade está sendo mais do que exposta nestes últimos dias. A polêmica entre os discursos ambientalistas sobre a nossa participação nesses eventos naturais, contrapondo-se a voz de outros que defendem a natureza cíclica desses fenômenos, para mim não deveria ser tão relevante.
Se é devido as intervenções humanas ou não que o planeta anda se aquecendo, não deveria ser o mais importante, e sim procurar entender o que tem levado a humanidade a agir como tem agido. Dois mil e dezessete, terceiro milênio, inovações tecnológicas em acelerado desenvolvimento e parece que temos regredido em nossas relações sociais.
O número de habitantes cresce velozmente no planeta, adequar o sistema produtivo necessário à alimentação de toda essa gente de forma sustentável é o desafio. Mas também é desafiante entender porque frente a tanta riqueza gerada, a tanta evolução alcançada, ainda há tanta fome, tanta miséria, tanta violência, tanto analfabetismo, tantas doenças sociais.
Jovens e crianças perdendo a vida em meio a tiroteios, tanto falamos nos condomínios residenciais, verdadeiras cidadelas cercadas por muralhas em nossas cidades a pretexto de maior segurança (será?), que podem propiciar por exemplo maior segregação social, e acompanhamos, dia e noite, os noticiários das favelas ocupadas pela marginalidade, como se fossem resposta às soluções de classes mais abastadas.
Aliás, as favelas no Brasil transformaram-se em produto de exportação. Mídias, novelas, cinema, música, a favela como fonte de exploração comercial. Exploram-se mulheres e crianças, demarcam-se territórios, e as pessoas dali sem infraestrutura digna de moradia. Muitos políticos provavelmente não desejam solucionar os problemas da cidade, são difíceis, custam caro, podem perder votos. Barato é ver a possiblidade do surgimento de epidemias, de desmoronamentos, barato é ocupar áreas de preservação e impróprias a habitação, barato é curtir os baratos que a vida proporciona, é mais fácil corromper, comprar votos, manter à margem, sob o cabresto, sob à necessidade.
A busca por nossa identidade tem nos deixado atônitos, procurando os nossos caminhos temos enredados por ruelas estreitas e sem fim, por um emaranhado de canais num desenho complexo que não permite ver a direção mais clara, mais aberta.
Furacões e terremotos podem ser afinal, por mais triste que sejam, um alerta a fragilidade humana, pois são nesses momentos que a solidariedade mais se desponta. É uma pena que temos prestado mais atenção em Sandy, Harvey, Katrina, Andrew e Irma, bom será o tempo em que notarmos mais os Joões, os Zés e muitos outros que estão mais próximos.
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Referências
As referências do menino eram as casas de madeira do Norte do Paraná. As casas perfilavam-se nas “datas” e, com o reforço dos balaústres de madeira das cercas, definiam as ruas estreitas onde brincavam de bola, de “31”, de queimada. Telhados em telha de barro, tipo francesa, tábuas unidas pelas mata-juntas, cimento queimado com vermelhão nos pisos das varandas, quando muito, ladrilhos hidráulicos ou cacos de cerâmicas formando mosaicos diversos, em sua maioria sem os labrequins de madeira nos beirais, os banheiros quase sempre fora de casa, e o sonho da casa de “material”.
Na memória, a Igreja de uma torre, linda, primeiro azul com detalhes em branco, depois amarela, com mosaicos de imagens dos santos nas paredes, o teto alto, o altar no presbitério elevado, a sacristia, e o sino batendo chamando para as “missões”. Na praça da igreja, no alto da cidade, os bancos em granitina com nome dos benfeitore e o cruzeiro em destaque ali ao lado. No salão de festas, aos fundos da matriz, aconteciam teatros, casamentos e até jogos de futebol de salão. Nas festas os espetos de bambu carregavam-se com pedaços de carne bem passada e apimentada.
A escola em alvenaria, em dois pisos, alinhava-se com os pés de café do outro lado da estrada. No pátio em cimento, na quadra de asfalto onde o piche grudava no “conga” quando o sol ardia, as crianças corriam, brincavam, divertiam-se e, sempre, no início das aulas, enfileiradas, cantavam o hino nacional. No “7 de Setembro”, após ensaios exaustivos, de cada escola, com suas fanfarras a frente, partiam os pelotões de alunos, percorrendo a cidade, até a entrada na avenida principal rumo à praça… que festa!
A praça, nova, de desenho moderno, com seu anfiteatro, sua fonte luminosa, era cenário para festas, para encontros de namorados, para passeio das famílias nos domingos, nos sábados… dias de maçã do amor, de balões de gás, do carrinho de pipoqueiro. A água da fonte, dançando, em várias cores, no ritmo das músicas, molhando o piso, numa chuva fina, como que se lavando a alma, não sai da memória! A rodoviária, também nova, moderna, linda, o embarque e desembarque em área rebaixada, com o muro de arrimo branco, ao fundo… tinha algo diferente ali. Acho que era o sabor da infância.
A estação ferroviária, a linha do trem, as escadarias para subir a barbearia com suas grandes cadeiras de ferro. A banca de revistas na calçada, a sensação especial no cinema assistindo Mazzaropi, não sei quantas vezes. Na fábrica de sorvetes, a “massa” de nata, a “vaca preta”, o sorvete de coco queimado. Foi assim, que nos meus primeiros anos, foram-se formando minhas referências na arquitetura e também nos valores e princípios que me levaram vida afora. Assim começou a construção do meu repertório cultural, simples assim. São caminhos que me levaram a arquitetura e, sem saber, já despertavam minha atenção, provocavam sensações, temperavam minha vida.
E você, quais foram suas primeiras referências?
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em Agosto de 2017
Uma boa obra de arquitetura
Depois da coluna de junho, acho necessário resgatar o propósito deste espaço me dedicando mais a arquitetura. Como talvez tenha me distanciado um pouco do tema, vale a pena considera-lo a partir de conceitos clássicos que conduziram e influenciaram a Arquitetura desde o Renascimento até a Arquitetura Moderna, e mesmo ainda hoje em dia.
Falo dos conceitos defendidos pelo arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio, no primeiro século antes de Cristo, que definiu como base para a arquitetura os princípios Utilitas (utilidades), Venustas (beleza) e Firmitas (solidez), que para melhor compreensão podemos também entendê-los analisando a função, a forma, e a estabilidade e durabilidade. Estes seriam então os elementos que definem uma boa obra de arquitetura ou ainda que traduzem a sua essência.
Para tratar da definição da arquitetura, dos princípios que a norteiam, resolvi buscar em citações de vários arquitetos algumas ideias que colaboram para vermos que em diferentes arquitetos e em diferentes épocas encontraremos pontos convergentes e outros nem tanto.
Mies Van der Rohe, um dos renomados arquitetos do século XX, responsável pelo International Style, dizia que “a arquitetura começa quando você junta dois tijolos com cuidado. Aí ela começa”. Isso vai de encontro a algo que há muito defendo, arquitetura não se realiza e não se consuma no projeto realizado, mas na obra realizada e utilizada. Podemos agregar aqui a definição de Artigas – “A Arquitetura é uma arte com finalidade”. Nesse ponto podemos enxergar que nem toda a obra seja arquitetura, mas sim aquela que expressa um sentimento, aquela carregada de intenções, buscando o atendimento de finalidades pré-estabelecidas que não se reduzem ao atendimento de necessidades físicas.
Conseguimos compreender melhor quando Frank Loyd Wright nos alerta: “Forma segue a função: isso tem sido mal interpretado. Deveriam ser um só, juntos numa união espiritual”. Vale ressaltar que “A forma segue a função” é um conceito cunhado por Louis Sullivan um dos pioneiros de projetos de arranha-céus da Escola de Chicago. Já o arquiteto maltês Richard England, iria defender na Bienal de Buenos Aires de 2007 que “a forma não segue a função, mas os sentimentos. Devemos ter mãos que vejam, olhos que sintam”.
Finalizo, com duas citações feitas em diferentes tempos, distantes, e das quais compartilho. A primeira de Jonh Ruskin que viveu entre 1819 e 1900 – “Não há arquitetura mais elevada que a simples”. A segunda delas dita pelo arquiteto chileno Aravena, vencedor do Pritzker 2016 – “Para mim a qualidade de uma boa arquitetura não depende tanto do talento, mas da formulação correta do problema a ser resolvido”.
Mas, vale ainda citar o grande arquiteto espanhol Gaudí – “Copiadores não colaboram”. Entenderam?
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em Julho de 2017
Não sejamos niilistas
Não sejamos niilistas.
Os traços percorrem o papel, as linhas se cruzam materializando o projeto, há esperança!
O telhado se projeta sobre as paredes, erguidas tijolo por tijolo, seguras pela massa de cimento… há esperança!
Sob o teto, no fluxo das horas, palavra por palavra, o conhecimento se difunde, há esperança!
Sob o sol, sob a chuva, folhas no vento, vidas que vão e vem, cruzando campos, cruzando cidades, litoral, interior, andando a esquerda, ou a direita, no centro, havendo encontro, há esperança!
No choro da dor e no sorriso do alívio, nas ruas que gritam, que suam, que correm, produzindo o amarelo, ou o verde, ou o azul, branco, vermelho, negro, nesse estranho arco íris, é a vida pulsando… há esperança!
Tolice! Gritam alguns: a vida é crua, gélida, fria… cínica!
Necessidade de um norte? Por que norte e não sul, por que ele e não ela, por que?
Da euforia ao nada. Mas não era sobre arquitetura? Pra que, nestes tempos? Loucura!
Batam panelas, levantem bandeiras, entrem na fonte, palavras de ordem, hipocrisias, ufanismos, otimismos, pessimismos… cadê você?
Cadê você, Brasil? Na lavoura, na construção, no escritório, no hospital, na escola…
Coragem! Outro dia, outro sol, outra lua. É isso! Outros sóis e outras luas, e assim haverá esperança! Estamos em catarse!
Não verás país como este… se ajudar a reconstruí-lo.
E antes que um certo alemão me acuse de uso indevido e errôneo:
“E aqueles que vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.
Na areia branca ou na terra vermelha, acredito, há esperança!
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em Junho de 2017
Cidade Ideal
Se eu lhes dissesse que em Paris, no século XIX, num edifício de 5 pavimentos, encontraríamos morando no térreo, o porteiro e sua família, enquanto no 1º. Piso moraria um rico casal de classe média, o segundo piso habitado por uma família de classe média num espaço mais confinado, no 3º. Piso moraria um pequeno burguês e no sótão estariam o artista, o velho e o pobre, talvez fosse difícil acreditar já que é uma situação totalmente diferente da que nós encontramos hoje, onde as nossas coberturas são extremamente valorizadas e os primeiros pavimentos consequentemente tem um valor menor. A situação acima foi retratada por Leonardo Benevolo, em sua “Storia della Citá”.
Mas por que esta introdução? Ela surge num momento de reflexão sobre uma questão que me foi feita durante participação recente numa aula de Planejamento Urbano do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unipar/Toledo. A pergunta foi: – Qual a minha cidade ideal? Para entender a situação do prédio de 5 pavimentos é necessário compreender desde o desenvolvimento tecnológico proporcionado, por exemplo, com o invento e evolução dos elevadores e, principalmente compreender que àquela época Paris passava a ter um aumento acelerado de população numa tradição de moradia coletiva de alta densidade, fortalecida em grande parte pela estabilidade do seu terreno e pelo preço barato de materiais de construção que favorecia a construção de edifícios maiores.
Ainda assim, o que uma coisa tem a ver com a outra? Ora, na mesma época, Londres que enfrentava também um aumento populacional, teve seu crescimento caracterizado em boa parte por ocupações com baixa densidade e no grande número de residenciais individuais. Isso demonstra que contextos diferentes levaram a construção de diferentes tipos de cidade e, não vou aqui entrar no mérito da análise de uma ou de outra, de suas vantagens e desvantagens. É certo, no entanto, que tanto uma como a outra são respostas diferentes a um evento, aumento e concentração de população.
Em parte, isso reforça os argumentos dados quando da minha resposta em sala de aula, não acredito que haja uma fórmula ideal. Cidades diferentes para culturas, tradições e povos diferentes. Assim como para terrenos e lugares diferentes.
Falanstérios, Cidades Lineares, Cidades Jardins, Unidade de Vizinhança, as propostas da Carta de Atenas de 1941, os eixos estruturais de Curitiba, e dentre uma série de modelos de cidades ao longo da história da civilização, não dá para simplesmente escolher entre um ou outro. O que é certo, pelo menos para mim, é que a pergunta que me foi feita, “Qual a cidade ideal?”, deve ser respondida cotidianamente por uma equipe multidisciplinar envolvendo arquitetos, engenheiros, geógrafos, sociólogos, sanitaristas, assistentes sociais, economistas, enfim uma série de especialistas mas que, sem a interação com a sociedade, e prevalecendo as prioridades de pequenos grupos, qualquer proposta de cidade não terá a legitimidade e identidade necessárias a sua apropriação pela sua população.
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em maio de 2017
Desenvolvimento Sustentável
Destaco, de início, uma citação de Françoise-Hélène Jourda: “responder aos critérios do desenvolvimento sustentável através de um projeto de arquitetura, no entanto, não se faz com uma simples atitude de imitação. Tudo está por ser descoberto… De fato, cada resposta é única e só corresponde a um único lugar, um único programa, uma única cultura”.
A premissa do desenvolvimento sustentável é assinalada aqui pela grande atração que o tema apresenta, para não dizer da demasiada exploração de mídia que o conceito tem provocado, muito mais que os resultados esperados. Mas, na verdade, o destaque surge também como necessidade de achar respostas a questionamentos que insisto em provocar.
Em uma das últimas edições de uma publicação especializada de arquitetura, a obra apresentada, com forma sui generis, sem dúvida, no seu texto explicativo revelava a dificuldade técnica, ou a complexidade para se conseguir a estética pretendida. Falava inclusive na necessidade de composição entre sistemas construtivos avançados e sistemas artesanais. Por que tudo isso? Qual o custo disso? Qual o sentido de tudo isso?
Acredito que são questões pertinentes, mas que podem ser respondidas numa reflexão de Vilanovas Artigas em seu “Caminhos da Arquitetura” de 1952: “Algumas formas da Arquitetura Moderna parecem absurdas e chocam dando a impressão de serem produtos do acaso, da fantasia, unicamente da fantasia do arquiteto que as imaginou. Entretanto não é assim. Cada escola, cada tendência, está montada sobre um certo número de premissas, e as formas dos edifícios que criam os arquitetos filiados a cada uma delas não são somente produto de sua fantasia, mas também uma consequência lógica dessas premissas. Se as formas são absurdas, são porque as premissas são irracionais.”
Apoio-me no Mestre para questionar, será que estamos sofrendo do “mal da irracionalidade”? Se cada resposta é única, se corresponde a um único lugar, a um único programa, a uma única cultura, tem algo errado em boa parte da produção arquitetônica mundial, e também por aqui, em terras tupiniquins. Ou talvez seja essa também uma premissa errada. Será?
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em abril de 2017
O que Revelam as Arquiteturas Atuais?
Tenho escrito muito sobre a relação da cidade e arquitetura, principalmente sobre o processo de construção e planejamento das cidades. Tenho também destacado a ideia de uma arquitetura mais consciente, que não busque ou force protagonismos na paisagem urbana. Questiono inclusive a validade de certas “arquiteturas”, que parecem mais imposições e representações de vaidades de quem as produz. Acho que vale a pena, ainda que brevemente, passear por períodos da história de nossa civilização, para refletir ou tentar extrair um pouco sobre a arquitetura produzida na época e dali tentar tirar algum aprendizado.
A arquitetura nasce com o nascimento das cidades. Com o desenvolvimento da agricultura e o abandono da vida nômade, surgem no Crescente Fértil, no Oriente Médio, as primeiras cidades. Aos poucos, o novo estilo de vida e as novas necessidades, foram promovendo o desenvolvimento tecnológico e artístico da arquitetura. As primeiras casas, descobertas em escavações na cidade de Jericó, eram feitas de tijolos de barros. Um dos primeiros exemplos de arquitetura grandiosa foram os Zigurates, templos que são espécies de pirâmides em degraus.
O Parthenon, para alguns historiadores, é tido como uma das mais influentes obras de todos os tempos. Sem dúvida, a sua perfeição geométrica e harmonia refletem a influência da arquitetura clássica grega na produção arquitetônica de outros povos. Já a casa grega, construída à volta de um pátio permitia que o sol no inverno pudesse penetrar até o fundo da habitação. A casa possuía também elementos que no verão a defendia de grandes calores.
A técnica do “cruck frame” utilizada nas casas de madeira, especialmente na Inglaterra, provavelmente foram influenciadas pelas construções de igrejas. A técnica consiste em vigas de madeira voltadas para dentro ou góticas, que se encontram no ápice do teto. As catedrais góticas, aliás, são exponenciais representantes da “tentativa de elevar a vida cotidiana aos céus”. Segundo Jonathan Glancey, a Catedral de Beauvais, com construção iniciada na França em 1220, foi projetada para “tocar Deus”. O historiador ainda cita o Abade Suger, que nos revela que as imagens nos vitrais, nas janelas das catedrais, são principalmente para os humildes, que não sabem ler a Palavra, para mostrar-lhes em quem acreditar.
Os exemplos acima apontam para como as respostas da Arquitetura se deram na “evolução” da civilização. Remetem à compreensão de como o desenvolvimento dos povos determinou o surgimento dos programas arquitetônicos, revelando culturas e tradições, e demonstrando as possíveis relações e influências tecnológicas entre os diversos tipos de construções. É a arquitetura, revelada e que revela, compreendida e que faz compreender o seu lugar e o seu tempo. Talvez uma questão interessante seja: o que as arquiteturas realizadas atualmente revelam?
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em novembro de 2016
Oppenheim
Confesso que não me lembro ter ouvido falar do arquiteto Chad Oppenheim até aquele dia em que sua frase, encabeçando a página de sua entrevista para Cristiano Dias, na Florense, me chamou a atenção: “A Arquitetura vai muito além daquilo que você vê. Para mim, ela é o que você sente”. O norte-americano, radicado em Miami, dava ali a pista para o que acredito diferenciar uma obra de arquitetura de outra, ou mesmo do que seja a diferença entre arquitetura e outra construção, a “alma”, o “espírito”, as “sensações” que são percebidas naquela obra, naquele lugar, que o tornam especial.
“Acho que há uma overdose de edifícios grandiosos. Eu tento fazer uma coisa que tenha relação com a essência do lugar, valorizando elementos naturais, como o céu, a vegetação e o jeito com que o sol reflete na água… Quero criar prédios que não são além do que eles precisam ser… Quero que as pessoas notem meus edifícios, mas que eles se misturem com o ambiente…”
Estes trechos foram pinçados da entrevista com o propósito de nos lembrar que ainda existe lucidez na arquitetura. Ok, não precisamos todos pensar da mesma forma, afinal exaltamos a diversidade, contudo a padronização do pensamento tem construído uma burrice coletiva, e como dito por Nelson Rodrigues, aliás também presente naquela edição da revista: “Toda unanimidade é burra, porque quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Mas não acredito que erro ao assinalar a grande volúpia por obras “fantásticas”, “estrelares”, por megaestruturas, que assola grande parte de uma sociedade que anseia por se sentir parte daquilo que é, ou pelo menos que se impõe, como necessário para obtenção de sucesso, para a construção de status, para a realização, ou pessoal, ou de uma gestão, ou de uma cidade.
De certa forma isto foi demonstrado neste período eleitoral em todo o país. Não generalizando, mas pouco se viu de propostas com visões mais estratégicas, de alcance maior, pensando as cidades conceitualmente, com propostas de uso de estratégias e ferramentas de gestão que em 2016 já estão, há tempos, ao nosso alcance. Viu-se uma enxurrada de obras e questões pontuais, muitas delas desconectadas, sem qualquer possibilidade de viabilidade, carregadas de populismo e com viés puramente eleitoreiro. Será que, infelizmente, esse é mesmo o jogo a ser jogado?
Vejo cidades e arquiteturas perdendo a essência de suas razões de existir, elas devem ser feitas para as pessoas, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. O paradoxo é que elas são feitas por pessoas. Assim acho que nos resta preparar melhor as pessoas. Educação, ensino, cultura. Parece mesmo que é o que mais precisamos. O resto será consequência.
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em outubro de 2016
Itália
Outubro me levou à Itália para a participação no Fórum Mundial de Desenvolvimento Local em Turim onde apresentei o Programa Oeste em Desenvolvimento e, num Seminário no Pavilhão do Brasil na Exposição Mundial de Milão, onde também apresentei o Programa enfatizando o potencial produtivo da região oeste do Paraná.
Foram momentos importantes para troca de experiências e aprendizado, com gente de toda a parte do mundo e “cases” diversos. Mas, também foi uma boa oportunidade para conferir a cordialidade dos italianos, tanto em Turim quanto em Milão, sempre prestativos, colaborando nas informações e orientações sobre os melhores caminhos, trens e metrôs.
Aliás, a disponibilidade de linhas, o atendimento aos horários, a limpeza das estações, surpreenderam positivamente nestas centenárias cidades. Isso, sem contar a beleza dos edifícios barrocos e renascentistas e os aspectos urbanísticos diferenciados, como por exemplo a apropriação das praças, parques e cidade, tanto pela população local como pelos turistas.
A relação dos edifícios no térreo é um dos elementos que chama a atenção. As fachadas ativas, a permeabilidade existente entre o espaço público e o privado, os passeios cobertos, proporcionam uma rua dinâmica, com possibilidade de encontros, determinando vitalidade ao espaço urbano.
Estas idas e vindas por locais diferentes, de culturas diferentes, aumentam nossa reflexão sobre o local em que vivemos. Encontramos novas tecnologias, novas possibilidades, mas também reforça a valorização da nossa casa, pois as lembranças das terras daqui, do nosso verde, da nossa gente, contribuem para reforçar nossa identidade. E, daí a refletir sobre as cidades que estamos construindo, os espaços que estamos edificando, e a forma como nos apropriamos destes ambientes, torna-se ainda mais instigantes.
A monumentalidade e os aspectos construtivos dos palácios, igrejas e outras obras, tanto aquelas góticas da era medieval, quanto do renascimento, naquilo que se refere ao uso de materiais, ou em composição, escalas e outros elementos, nos remete ao desafio de que a arquitetura pode, nos tempos de hoje, alcançar muito mais. A necessidade da compreensão das relações do espaço construído e sua inserção no meio urbano deve ser motivo de maior preocupação. Podemos e devemos contribuir com a melhor qualidade de nossos espaços públicos, fundamentalmente, mas também elaborar projetos de edifícios privados mais ajustados as necessidades técnicas, funcionais e espaciais, fugindo de padronizações ou tendências “fabricadas”, superficiais, supérfluas e elitistas. Nossas cidades merecem…e necessitam.
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em novembro de 2015

Questões Urbanas
Há tempos tenho baseado meus textos na discussão das cidades. Não fiz um levantamento, mas, de lembrança, parece que tenho focado mais nas questões urbanas. Não é uma coisa tão pensada assim em termos de maior ou menor destaque a algum tema, mas com certeza vai de encontro ao propósito do debate entre a valorização do edifício isolado em oposição ao desenho urbano.
Estamos em uma época de extrema valorização de formas midiáticas, que alcançam exposições espetaculares, que impressionam pelas condições mais de surpresa do que pelo caráter de originalidade. E mais, transformam seus criadores em estrelas de magnitude, ouso dizer, maior que suas obras. Não quero contestar aqui o merecimento ou não de tais reconhecimentos, mais principalmente da falsa ideia da necessidade de “obras fantásticas” para revitalizar ou referenciar espaços urbanos.
E as cidades vão se ajustando, se transformando, com desequilíbrio, com incongruências, com imposições, onde contrastes se acentuam, onde cenários mascaram ou escondem problemas estruturais que merecem maiores cuidados. Em parte, acredito, porque aqueles que se propõem ao debate se perdem em discursos vazios, antagônicos, ideologicamente arcaicos, ficando em segundo plano, ou por incompetência, ou por desconhecimento, ou por arrogância, as questões técnicas e, ou, uma visão mais ampla e prática do funcionamento da urbe.
O estudo das densidades, dos parâmetros urbanísticos tais como taxa de ocupação e taxas de impermeabilidade, dos usos e ocupação do solo, são fundamentais para temas como a mobilidade urbana, a interação social, e a otimização de infraestruturas. Da mesma forma, e com a mesma importância, é o repensar a cidade pela criação de vias de articulação e do trato da expansão urbana, considerando e atendendo aos conceitos atuais de cidades mais compactas. Não há como deixar de dar importância a estes temas, mas o estudo da cidade exige mais que isso.
“Em cidades economicamente desenvolvidas, em geral, a negligência é devida a ideologias de planejamento, rápida motorização e dificuldades na passagem de um modelo em que a vida nas cidades era parte óbvia da tradição, para um modelo onde a vida necessita da sustentação ativa de um atento planejamento. Nas cidades de crescimento acelerado, em países emergentes, o crescimento da população, o florescimento de oportunidades econômicas e o aumento explosivo do tráfego criaram problemas monumentais nas ruas”.
O texto acima é de Jan Ghel, arquiteto dinamarquês e autor da obra “Cidades Para Pessoas”. E ele continua:
“Enquanto o descuido quase extinguiu a vida urbana em alguns países desenvolvidos, a pressão de empreendimentos empurrou para as mais adversas condições em muitos países com economias menos desenvolvidas. Nos dois casos, tornar viável a vida na cidade exigirá um cuidadoso trabalho com as condições para as pessoas caminharem, pedalarem e utilizarem o espaço público urbano”.
Sim, o planejamento e a discussão das cidades merecem e requerem um cuidadoso trabalho. Trabalho que também requer multidisciplinaridade, e mais que isso, uma interdisciplinaridade, onde não só se visualize a existência de várias disciplinas, mas que principalmente aconteça uma discussão e interação sincronizada das mesmas. Planejar a cidade é tarefa coletiva e, como ensina Gehl, deve partir da compreensão e valorização da dimensão humana.
- Autor: Mario César Costenaro. Texto originalmente publicado na revista “Friends”, em Julho de 2015
